Mota-Engil negocia compra da Bamin no Brasil, segundo fontes

Mota-Engil negocia compra da Bamin no Brasil, segundo fontes
Mina de minério de ferro Pedra de Ferro, da Bamin, na Bahia | Credits: Bamin

A Mota-Engil, empresa portuguesa que tem como principal sócia a China Communications Construction Company (CCCC), está negociando a compra da Bamin no Brasil, segundo fontes. A empresa detém a concessão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) na Bahia, além de uma operação de mineração do Estado, e planos de construir um porto em Ilhéus.

Uma pessoa a par do tema afirma que a operação está avançada. Procuradas, as companhias não comentaram.

Ainda segundo fontes, a Bamin chegou a ter memorandos de entendimentos com outras três companhias. Conforme o Valor havia noticiado, a Vale chegou a analisar a compra do ativo, sob pressão do governo, em parceria com o BNDESPar … leia mais em Valor Econômico 16/12/2025

A avaliação no Brasil das negociações para a compra da Bamin pela Mota-Engil

Por Bnamericas

As negociações da gigante portuguesa Mota-Engil para adquirir a Bahia Mineração (Bamin), dona de ativos de minério de ferro e de um projeto de ferrovia e porto, foram bem recebidas por agentes no Brasil.

Nesta semana, a BNamericas reportou que a Mota-Engil, que tem o grupo chinês CCCC como acionista minoritário, mantém conversas avançadas sobre a aquisição com a controladora da Bamin, a Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão, segundo duas fontes familiarizadas com as negociações, que pediram para não ser identificadas.

A Bamin é responsável pela construção de um trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e pelo projeto do Porto Sul, no estado da Bahia – ambos essenciais para garantir o escoamento da produção da mina Pedra de Ferro, que tem capacidade estimada de produção anual de 26 milhões de toneladas de minério de ferro. 

No total, os projetos demandam investimentos adicionais de cerca de US$5 bilhões para serem concluídos.

"É interessante ter uma empresa do tamanho e da credibilidade da Mota-Engil negociando a Bamin, uma vez que isso dá uma segurança a mais para o avanço dos projetos", disse à BNamericas uma fonte do governo brasileiro, que pediu para não ser identificada no artigo.

Há meses, a ERG, que enfrenta dificuldades para assegurar os recursos necessários para avançar com os projetos, tenta vender o ativo. 

A iniciativa chegou a atrair o interesse de um consórcio formado por Vale, Cedro Mineração e BNDES, mas a Vale mostrou-se reticente em avançar com o negócio devido ao elevado volume de investimentos necessários para concluir os ativos de infraestrutura.

Além disso, recentemente também surgiram informações na imprensa local de que a Brazil Iron Mineração Ltda., uma empresa com sede no Reino Unido e que possui 24 direitos minerários de ferro e manganês por meio de sua subsidiária brasileira, estaria interessada nos ativos da Bamin.

Porém, tal transação vinha causando preocupações no governo brasileiro, em meio a temores de que essa empresa não teria capacidade financeira para avançar com os grandes projetos da Bamin.

Financiamento 

Caso as negociações entre Mota-Engil e ERG avancem, a empresa portuguesa poderá ter à disposição linhas de financiamento especiais para os projetos.

"A Bamin já tem um financiamento aprovado de cerca de R$4,6 bilhões (bi), por meio do Fundo da Marinha Mercante, para a realização das obras do Porto Sul. Caso haja mudança de controle da empresa, esse contrato tende a sofrer alguma repactuação, mas pode continuar vigente, se for do interesse do novo controlador ter esse financiamento", disse o funcionário do governo brasileiro.

O FMM oferece condições mais vantajosas, já que suas taxas de juros são atreladas à variação da Taxa de Longo Prazo (TLP) mais a inflação acumulada em doze meses, mantendo os juros abaixo de outras linhas de crédito que costumam superar a variação da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano. Como comparação, financiamentos via FMM em dezembro apresentam juros de 7,82% ao ano, acrescidos da variação do IPCA, que registrou alta de 4,5% nos últimos doze meses.

Atualmente, o governo está estruturando uma regra para tornar elegíveis os fundos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) para alguns projetos ferroviários associados à atividade portuária, o que também pode beneficiar o financiamento do projeto Fiol da Bamin.

Segundo fontes consultadas pela BNamericas, o maior montante a ser assumido pela Mota-Engil será as obrigações de investimentos a serem feitos pela Bamin para avançar com seus projetos logísticos e o valor da aquisição a ser pago à ERG tende a ser simbólico.

Projetos Logísticos

O projeto da Fiol é dividido em três trechos e a linha ferroviária total tem 1.527km, conectando Ilhéus, na Bahia, a Barreiras, no estado do Tocantins.

Em 2021, a Bahia Ferrovias, uma unidade da Bamin, conquistou a concessão de 35 anos para o trecho um, de 537km, porém, no começo deste ano, a empresa anunciou a paralisação das obras em meio às negociações de venda de seu controle. O trecho da Fiol sob responsabilidade da Bamin está cerca de 75% concluído.

Embora a ligação direta da Fiol se dê ao porto de Ilhéus, a linha férrea é parte de um plano ainda mais ambicioso de logística no Brasil, que também atrai interesse de investidores chineses, inclusive do grupo CCCC, que atualmente é acionista minoritário da Mota-Engil.

"A Fiol é parte de um plano para se criar um corredor ferroviário que conectará os oceanos Atlântico e Pacífico. Esse corredor integra a Fiol, as ferrovias Centro-Oeste (Fico) e a Ferrovia Norte-Sul (FNS) e fará conexões entre o litoral brasileiro, no oceano Atlântico, e o recém-inaugurado porto de Chancay, no Peru", disse Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer), à BNamericas.

O porto de Chancay foi desenvolvido pela Cosco Shipping Ports Chancay Perú, uma joint venture entre a chinesa Cosco Shipping Ports e a mineradora peruana Volcan.

Em julho, o governo brasileiro assinou um memorando de entendimento com a China para promover a integração com o Peru por meio do porto de Chancay. 

O acordo, assinado pelo governo federal e pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Planejamento Ferroviário da China, um braço do China State Railway Group, prevê uma parceria para a realização de um estudo estrutural aprofundado da infraestrutura logística nacional, com foco na intermodalidade e na sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Os estudos de viabilidade do projeto no lado brasileiro serão realizados pela estatal Infra S.A. Ao todo, a ferrovia ligando o litoral brasileiro ao litoral do Peru teria cerca de 4.500km de extensão, conectando estados do centro do Brasil a Chancay, e também se estenderia até o porto de Ilhéus, projeto desenvolvido pela Bamin.